Maria de Azevedo Brito e Rose Dekker são founders da Ambigular, uma startup que produz histórias na perspetiva de quem as vive, de forma a construir uma sociedade mais inclusiva.

FOUNDERS DE IMPACTO | ODS 16 – Paz, Justiça e Instituições Eficazes

(7 min read)

 

Maria de Azevedo Brito é cofundadora da Ambigular e coordenadora do projeto “Travessia”. Trabalhou na China, entre 2015 e 2020, implementando projetos culturais para inclusão social, tendo anteriormente desenvolvido projetos de storytelling na Turquia e na Palestina. Licenciada em Direito, com experiência em direito dos refugiados e direitos humanos.

Rose Dekker é cofundadora da Ambigular. Desenvolveu uma organização semelhante em Xangai na China, onde também fundou e editou revistas de cultura e organizou vários festivais e eventos para promoção da inclusão social. Em Amsterdão licenciou-se em Filosofia e em Xangai adquiriu o grau de mestre em Filosofia e Cultura Chinesa. Tem experiência em design gráfico, edição de som e vídeo.

“Travessia” é o resultado de três meses de um programa de storytelling da Ambigular em parceria com a Associação Adolescere.

Consiste num podcast de seis episódios, no qual seis mulheres refugiadas provenientes do Iraque, da Nigéria, do Sudão e do Sudão do Sul, narram na primeira pessoa as suas histórias e trajetórias, por entre continentes, mares, desertos e fronteiras, até chegarem a Portugal.

Os três primeiros episódios já estão online e contam as histórias de Sadia, Wasen e Salwa. Ajor, Hiba e Blessing serão as protagonistas dos próximos três.  O projeto resulta também num livro ilustrado, que será lançado em breve.

Ambigular é uma organização que produz histórias na perspetiva de quem as vive, de forma a construir uma sociedade mais inclusiva. É um projeto residente na Casa do Impacto e obteve o segundo lugar, na final da 2ª edição do Rise for Impact.

CI – Porque decidiram iniciar o projeto (em Portugal), com esta comunidade especifica? 

M.B./ R.D – Viver e trabalhar na China foi uma experiência extraordinária, sem a qual não seríamos as pessoas e as empreendedoras que somos hoje, mas depois de cinco anos a trabalhar sob uma série de restrições, resolvemos continuar o nosso trabalho noutro contexto.

Portugal reunia as condições políticas que procurávamos, mas ao mesmo tempo ainda é um país onde há muito a fazer do ponto de vista social. Além disso, a língua é essencial no nosso trabalho, e por isso era importante recomeçarmos num país onde uma de nós já fosse fluente na língua. Finalmente, gostamos imenso de Lisboa.

O nosso primeiro projeto em Portugal foi feito com uma comunidade de mulheres refugiadas, por duas razões. A primeira tem a ver com a representação destas histórias. As experiências das mulheres refugiadas não são tão conhecidas. Ou as experiências de refugiadas e mães solteiras, ou de mulheres refugiadas e negras. As realidades que se interseccionam nas histórias destas pessoas são realidades ainda pouco representadas, e achámos que seria relevante conhecê-las, a partir da perspetiva das próprias. A segunda é que é importante colaborarmos com outras entidades que acompanhem as pessoas que participam no programa, e que possam dar o apoio que elas precisem, e a Associação Adolescere, responsável pelo acolhimento das participantes no projeto, estava bastante recetiva a este programa.

O nosso objetivo com este projeto é criar um espaço de partilha para estas histórias, através da participação das protagonistas, e ao mesmo tempo partilhar estas histórias com o público, de forma que a sociedade cresça e se torne mais inclusiva.

CI- Como se desenvolve este programa de capacitação desde o primeiro contacto com a comunidade até à criação dos produtos (podcast, livros, etc.)? Como se ultrapassam barreiras como a da língua, entre outras, até se chegar ao âmago das histórias, das pessoas? 

M.B./ R.D – Uma boa história precisa de tempo e de confiança, por isso o nosso programa começa com a questão: quem quer participar? Depois disso começamos com 6 a 10 sessões de grupo, seguidas de acompanhamento individual para a criação da história final com as pessoas que decidem passar à fase seguinte, a publicação de uma história pessoal. O ângulo das histórias é decidido com as participantes. No caso de Travessia, elas decidiram que iam partilhar as histórias das viagens que fizeram desde o país de origem. Algumas delas nunca tinham contado estas histórias a ninguém, outras contavam estas histórias todos os dias aos seus filhos.

A barreira da língua é ultrapassada com o envolvimento de uma intérprete no programa. Trabalhámos com a Haidia Bashir, uma mediadora cultural do Sudão, que não se limitou a traduzir, mas também fez parte do planeamento de cada sessão.

Depois das sessões de grupo, gravámos individualmente uma história na rádio; a seguir, as participantes ouviram e transcreveram a história tal como queriam que fosse partilhada – algumas partes foram cortadas, e outras foram desenvolvidas. A Haidia apoiou quem não podia escrever.

A tradução final foi feita pela Khaoula Houssini, uma pessoa com quem trabalhamos há vários anos, desde os projetos na China, e que sabemos que respeita a intenção das contadoras – esta tradução final foi feita também em coordenação com a Haidia, que esteve em todas as sessões.

Finalmente, editamos o produto final – em Travessia, um podcast e livro!

CI- Sendo estas histórias de grande complexidade emocional, como é dado o apoio necessário às pessoas que as contam, durante o processo?  

M.B./ R.D – Contar histórias pessoais pode ter um efeito terapêutico, mas o confronto com momentos traumáticos, sem o acompanhamento devido, também pode provocar o oposto. É, por isso, importante colaborarmos com entidades que façam esse acompanhamento e que tenham a capacidade de oferecer apoio psicológico. No caso de Travessia, contámos sempre com o acompanhamento da equipa da Associação Adolescere.

 

CI- Objetivamente, qual o impacto que este programa de capacitação já teve, ou esperam que tenha na vida destas mulheres? 

M.B./ R.D – De acordo com os nossos inquéritos, além do aumento do bem-estar geral, todas as participantes sentiam, no fim das sessões, que tinham mais voz na sociedade. Isto é muito positivo, porque um dos objetivos do programa é encorajar a participação.

As histórias têm sido partilhadas em vários meios, incluindo jornais e rádios locais, e esperamos gerar mais entendimento para as suas realidades e inspirar mais ação para a inclusão.

Esperamos também que elas continuem a usar as técnicas trabalhadas, que podem ser tão úteis – sabemos por exemplo que nenhuma delas trabalhava antes do programa e que três delas começaram a trabalhar a seguir ao programa, mas é claro que a associação de acolhimento tem também feito um trabalho excelente neste aspeto.

 

CI – Quando será lançado o livro e como será distribuído? 

M.B./ R.D. – O livro foi apresentado esta semana, dia 26, em Braga, com a participação das protagonistas e contadoras das histórias de Travessia, e com a presença da Alta-Comissária para as Migrações, Sónia Pereira, da Secretária de Estado para a Integração e as Migrações, Cláudia Pereira e do Presidente da Câmara Municipal de Braga, Ricardo Rio.

A distribuição está a ser feita em escolas e empresas, e também em bibliotecas municipais. O livro está também disponível para encomenda no site da Adolescere.

 

CI- O vosso modelo pode ser usado em outras comunidades.  Se outras organizações que tenham conhecimento deste projeto vos abordarem no sentido de desenvolver algo semelhante junto das suas comunidades, o que podem esperar? 

M.B./ R.D. – A story advisor da Greenpeace, Tsering Llama, resume muito bem a nossa forma de trabalhar: “you can share the skills and you can share the space, and then you get out of the way”. Este modelo pode ser usado com qualquer comunidade.

Na China, trabalhámos com todo o tipo de comunidades – com crianças filhas de migrantes rurais, com comunidades surdas, entre muitos outros, e apesar de cada programa e cada produto ser sempre diferente, o modelo é o mesmo.

O que podem esperar de nós é que saberemos dar espaço para que as histórias de cada comunidade sejam contadas, e que garantiremos que as pessoas que as contam permanecem detentoras e protagonistas das mesmas. Podem contar também com um produto final acessível e cativante.

 

CI- Quais os próximos passos da Ambigular/ que projetos já têm alinhados para os próximos tempos? 

M.B./ R.D. – Começamos a trabalhar recentemente com um grupo de pessoas refugiadas e imigrantes acolhidas pela Jesuits Refugee Service e pela Plataforma de Apoio aos Refugiados, e estamos a discutir um novo projeto com uma comunidade Cigana.

Além disto, estamos a desenvolver uma rede de contactos com outras plataformas de storytelling para impacto social, noutros países, para nos apoiarmos e ampliarmos a visibilidade e o impacto do nosso trabalho.

 

CI- Qual a meta-última que ambicionam alcançar com o trabalho desenvolvido pela Ambigular (ex: ao nível de influenciar políticas públicas, etc.)? 

M.B./ R.D. – A nossa meta-última é uma sociedade inclusiva, onde todas as pessoas têm oportunidades; uma sociedade onde todas as pessoas podem viver com dignidade, livres de discriminação e preconceito. A inclusão de diferentes narrativas na nossa sociedade e no conhecimento coletivo, a partir da perspetiva das pessoas que vivem essas narrativas, é essencial para chegarmos a essa sociedade.

 

Alguma sugestão de leitura ou vídeo relacionado com o ODS 16 que queiram partilhar?

M.B./ R.D. – The Good Immigrant, de Nikesh Shukla.

 

Founders de Impacto entrevista os empreendedores e fundadores das startups e dos projetos residentes na Casa do Impacto, cuja missão se alinhe com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) trabalhado em cada mês.

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Olhar de mulher africana